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CRAQUES


Tesourinha
Em 1948, o mulato Osmar Fortes Barcellos (3/10/21), venceu um concurso, o Melhoral dos Craques do Brasil, graças aos votos em peso que lhe deram os torcedores do Inter. O prêmio era um apartamento no Rio. Nove anos antes, quando ele começou no clube, jogava para ganhar um litro de leite por dia. Tesourinha foi não apenas o maior ponta-direita da história do Colorado. Em sua época, ninguém o superou em talento. Mulato habilidoso e veloz, fazia pouco de seus marcadores, infernizava a vidas das defesas contrárias. Era a estrela maior do Rolo Compressor, o time que deu ao Inter o hexacampeonato gaúcho nos anos 40. Mesmo como atleta de um time do Sul, era convocado para a seleção brasileira, na qual integrou um ataque que tinha ainda Zizinho, Heleno, Jair e Ademir. Os torcedores do Inter, que lotaram a igreja em que ele se casou, em 1944, não tinham dúvidas em dizer que, estivesse ele no ataque brasleiro na Copa do Mundo de 1950, o ponta-direita herói daquele Mundial certamente não seria Alcides Gigghia. E Tesourinha nem jogador do clube gaúcho era mais. Em 49, saíra para atuar no Vasco. Mas, contundido, ela acabaria fora daquela Copa, a qual acompanhou em recuperação de uma operação de menisco. Quando retornou a Porto Alegre, em 52, seu endereço foi o Grêmio. E, mais uma vez foi história: tornou-se o primeiro jogador de cor a defender o clube. Não brilhou tanto, porém, quando nos tempos em que envergava a camisa vermelha.

Carlitos
Um ponta- esquerda artilheiro. Alberto Zolin Filho (27/11/21) marcou época no Inter. Raçudo, como gosta a torcida do Colorado. Veloz, como se exige de um bom ponta. Batia forte de canhota e fazia gols de difícil concepção. Cabeceava bem e não temia a cara feia dos beques adversários. Conseguiu destacar-se num ataque que, do outro lado, tinha o mito Tesourinha. Não brilhou como o companheiro, mas deixou seu nome gravado a ouro na história do clube.

Bodinho
Como centroavante, foi notável, apesar dos apenas 64 quilos para 1,75 m. As cabeçadas fortíssimas mudaram o nome do pernambucano Nílton Coelho da Costa, que peregrinou por clubes do Brasil, entre eles o Flamengo, enquanto descia o país até aportar em Porto Alegre, no Nacional. No início dos anos 50, chegava ao Inter. De ponta-direita, foi transformado em centroavante. E parecia que ninguém lhe roubaria a posição, tamanha a sua eficiência. Mas o clube contratou o forte Larry e o nômade Bodinho virou meia-direita. Para ser ainda melhor e marcar muitos gols mais.

Larry
Fluminense de Nova Friburgo, Larry Pinto de Faria (3/11/32) não era o típico centroavante de choques com os zagueiros. Quando chegou ao Inter, procedente do Fluminense, logo mostrou suas qualidades de jogador inteligente. Era refinado, de futebol sofisticado, intuitivo. E mortal. Chegou em 54 e, no mesmo ano, fez quatro gols no Grêmio, numa goleada por 6 a 2 que marcou a inauguração do Estádio Olímpico, do rival. Sua elegância era ainda mais acentuado por ser magro, alto, bem penteado. Ele defendera a seleção brasileira na Olimpíada de Helsinque, em 1952. E foi o destaque da seleção gaúcha que representou o Brasil no Pan-Americano de 56, no México, sendo campeã. Formou com Bodinho a melhor dupla de ataque da história do clube. Em 62, popularíssimo, foi eleito deputado estadual pela UDN. E trocou o campo pela política.

Claudiomiro
A história do atacante talentoso e goleador que lutava contra a balança não chega a ser incomum no futebol brasileiro. São vários os times que lamentaram isso em relação a seu centroavante. E, no Inter, esse personagem era Claudiomiro Estrais Ferreira, revelado pelo clube no Torneio Roberto Gomes Pedrosa de 67, meses depois de destacar-se no Campeonato Brasileiro de seleções juvenis, em Belo Horizonte. Tinha só 17 anos e conquistou um lugar no ataque colorado, no qual brilharia por cinco anos. É um dos nomes que mais frequentam as histórias folclóricas sobre jogadores de futebol. Aquelas piadinhas sobre mancadas monumentais que são aplicadas a diferentes atletas sempre contaram com Claudiomiro no “elenco”. Ele defendeu a seleção brasileira em 1971. Sim, ele estava no grupo quando Pelé se despediu da camisa amarela, com um jogo festivo no Morumbi e outro no Maracanã, antes da Copa Rocca. Mas os quilos a mais foram prejudicando a movimentação dele, que passou a defender vários outros clubes. Ainda retornou ao Inter aos 29 anos, em 79, mas a balança era um marcador mais difícil de ser superado que os zagueiros a quem ele superou com seus gols.

Valdomiro
Quem descobriu Valdomiro Vaz Franco no time do Metropol, de Criciúma, na vizinha Santa Catarina, foi Tesourinha, seu mais ilustre antecessor na ponta-direita do Internacional. Forte, rápido, com um poderoso chute e cruzamentos mortais, Valdomiro chegou ao Inter em 68 e caiu nas graças da torcida. Não havia título em que, de seu certeiro pé direito, não saísse um gol ou cruzamento decisivo. Foi o único jogador do clube a brilhar de ponta a ponta nos oito anos consecutivos de títulos gaúchos, entre 69 e 76. Lá estava ele presente, e fundamental, nos três títulos nacionais. Até na seleção brasileira mostrou sua estrela. Lembram-se quem fez o terceiro gol contra o Zaire, que classificou aquela confusa equipe de Zagallo para a segunda fase da Copa do Mundo? A torcida do Inter lembra-se demais dessa contribuição do ponta para os maiores momentos de glória do clube. Tantou que, em 82, quando ele voltou de um período de dois anos no Olimpia do Paraguai, ela o recebeu de braços abertos. E o conduziu, com seus votos, à Câmara Municipal, como vereador eleito pelo PMDB.

Carpegiani
No Inter, ele era simplesmente Paulo César, desde que foi promovido aos profissionais em 70. Nascido em 7/2/49, em Erexim, era um meia que conseguia conciliar o estilo clássico dos craques da posição com a competitivade tão cara ao futebol gaúcho. Por cinco anos, ele comandou o meio-de-campo do Internacional. Mesmo quando Falcão entrou no time, em 73, era ele, Paulo César, quem ditava o ritmo da equipe. Convocado para a seleção brasileira que disputou a Copa de 74, na Alemanha, mostrou sua personalidade. Sem vaga na meia, território de Rivellino e Paulo César e tendo como concorrente extra Ademir da Guia, topou ser volante. E jogou o veterano Piazza para o banco de reservas. Paulo César, que a partir daí incorporaria o Carpegiani ao nome futebolístico, não era de fazer muitos gols. Mas fazia alguns, com classe, precisão. Importante no título brasileiro de 75, assistiu frustrado o time ser bicampeão no ano seguinte. Contundido, acompanhou a campanha do lado de fora. Em 77, já mais chamado de Carpegiani do que de Paulo César, foi negociado com o Flamengo. E faria história também na Gávea, como craque e como técnico.

Figueroa
Aquele gol que decidiu o título nacional de 75 contra o Cruzeiro, escorando de cabeça o centro da direita de Valdomiro, já bastaria para incluir Ricardo Elias Figueroa Brander (25/10/45) na galeria dos maiores heróis colorados. Mas isso foi apenas um detalhe - o mais glorioso, é verdade, mas apenas um detalhe - no arsenal de jogadas e gestos que imortalizaram Don Elias como o maior zagueiro que já pisou os pés no Rio Grande do Sul. Em seu Chile natal, divide com o seu contemporâneo Carlos Caszely, um notável atacante, as honras de melhor jogador da história do país. Ele era completo. Alto, forte, clássico, viril, sério, raçudo, líder, técnico, valente. Os adjetivos são incontáveis para qualificar o futebol extraordinário de Figueroa. Além do mais, boa pinta, atraía o público feminino aos estádios. Politizado, inteligente, era leitor de Pablo Neruda. Contratado do Peñarol, como contraponto da transferência de Atilio Genaro Ancheta do Nacional de Montevidéu para o Grêmio, no mesmo 71, Figueroa tomou conta do pedaço. E por mais cinco anos ninguém o superou. Num time que tinha craques por todos os lados, ele ganhou a braçadeira de capitão. Que lhe caía como uma luva. O gol que castigou o cruzeirense Raul foi apenas o toque maior de uma trajetória que ainda lhe daria o bicampeonato nacional do ano seguinte. Carregado de títulos gaúchos, ainda em alta, com elogios que lhe eram sempre poucos, disse adeus ao Colorado para ir defender o Palestino, de seu país.

Falcão
Ele está num dos versos de Paralelo 30, a bela música de Cleiton e Cledir. E na memória de que ama o futebol bem jogado. Nunca o futebol gaúcho - e pouquíssimas, raras vezes o brasileiro - viu um jogador de meio-de-campo tão completo. Diga uma função fundamental para um bom volante. Falcão a executava magnificamente. Pense numa característica indispensável para o bom meia. Você certamente a visualizará em Falcão. E os gaúchos não hesitam em afirmar que, entre tantos craques que construíram a história do Internacional, o maior de todos foi Paulo Roberto Falcão (16/10/53), catarinense de Abelardo Luz. Nos Jogos Olímpicos de Munique, em 72, a seleção brasileira foi um fiasco. Não passou da primeira fase. Mas aquele lourinho espigado, então dono de uma vasta cabeleira, não passou despercebido. No ano seguinte, ele já era titular no Beira-Rio. Onde seria rei. Já bicampeão brasileiro, ele talvez tenha mostrado mais o seu valor quando o Inter começava a cair. Pois foi graças a ele, mais do que todos, o único título nacional de um time, o de 79, quando conduziu o Inter à conquista de seu terceiro Brasileiro. No ano seguinte, pioneiro, reabriria as portas do futebol italiano para os maiores craques brasileiros de sua geração. Ele foi o primeiro. Quando os outros o seguiram, já o encontraram Rei de Roma. O Inter nunca mais foi o mesmo depois de sua saída.

Mauro Galvão
Atrevido, o garoto Mauro Geraldo Galvão, titular e campeão brasileiro aos 17 anos, devolveu à altura a bronca de Falcão, quando driblou um adversário dentro da área, para limpar a jogada e dar início a mais um contra-ataque do Inter. “Dá de bico!”, gritou-lhe o craque do time. “Eu não sei onde é o bico”, retrucou o zagueiro. Foi a sua senha para tornar-se um dos grandes do Colorado. Com apenas 1,79 m, Mauro Galvão, que demonstrava nas boates de Porto Alegre, ser um exímio dançarino ao melhor estilo John Travolta, nunca teve problemas com o tamanho. Nem no jogo aéreo, que ele sempre dominou bem. Se tivesse saído mais cedo para a Europa, diziam muitos, teria sido um senhor líbero. Quando saiu, já havia ido a duas Copas do Mundo (86, como reserva, 90, como titular) e exibira sua arte no Botafogo. E foi-se esconder na Suíça. Voltou seis anos depois, via Grêmio. Seu futebol era o mesmo. No Vasco, também comprovou isso.

 


Domingo, 05 de Set de 2010
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